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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2: quem é o inimigo?

A violência da saraivada de socos com a qual o coronel Nascimento espanca um político corrupto no notável e contundente "Tropa de Elite 2" expressa a indignação do cineasta José Padilha em relação aos detentores do poder, levando, junto com ele, a plateia.

Não será exagerada a afirmação de que "Tropa de Elite 2" é o grande filme político da história do cinema brasileiro. Não apenas por ser uma corajosa expressão da realidade (usando o termo deleuziano) do atual momento vivido pelo País, como também pelo fato de levar a plateia a conhecer o submundo brasileiro, ou seja, os corredores da política.

A impressão que o filme perpassa é se tratar da indignação de um cineasta, repassando-a para uma obra de ficção. É a expressão da realidade vivida no País. Há serenidade na exposição, mas as imagens transmitem inquietação e revolta ao expor um país sendo esculhambado pelos homens que deveriam zelar por ele - e são regiamente pagos e privilegiados com mordomias para isso. Com a indignação do cineasta, "Tropa de Elite 2" leva o espectador a perceber queele, como cidadão, é o grande bobo nessa grande corte chamada "política".

Junto com a extrema seriedade e consciência com as quais o Brasil se estampa na tela, o filme trafega, embora de forma leve, pela ironia - os bobos percebem e riem. São os únicos momentos de descontração que os bobos têm ao longo de 112 minutos de murros na cara. Os bobos são aqueles chamados de "eleitores", que de dois em dois anos vão às urnas eleger políticos como representantes. Ironicamente, a eleição em andamento eliminou um tal de "título de eleitor", mas a obrigatoriedade de manter as pessoas votando persiste - pois, afinal, sem os bobos, o caro sistema político com milhares de vereadores, deputados, senadores, além de todo um "staff" de ministros e funcionários, não terá como "manipular a massa".

"Tropa de Elite 2" surgiu a partir do livro homônimo escrito em parceria por Cláudio Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE, André Batista, major da Polícia, Cláudio Ferraz, delegado, e pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares (o livro teve, assim como o filme, lançamento nacional ontem, com o selo da Editora Nova Fronteira, ao preço de R$ 39,90). O livro, por sua vez, se originou de uma palestra cujo tema era "o crime organizado", proferida pelo delegado e presenciada por Pimentel.

Para espanto da plateia, Ferraz não falou em traficantes, drogas ou sequestros. O seu tema era as milícias. Reunidos, os quatro criaram uma história baseada em fatos e acontecimentos - a CPI das Milícias na Assembleia do Rio de Janeiro, os inquéritos, as ações criminosas, além de histórias colhidas ao longo das pesquisas - e personagens reais - cujos nomes foram mudados a fim de evitar processos judiciais.

O filme seria lançado em agosto, mas foi levantada a discussão de que poderia mudar o rumo das eleições - o que na época Padilha não contestou -, e posteriormente, não sabe como e nem por que, apontado para o início deste mês. Como está sendo lançado a cerca de 20 dias das eleições presidenciais de segundo turno, será interessantíssimo aguardar se esse efeito será, ou não, verdadeiro.

Em todo caso, os autores afirmam que o momento é propício para o lançamento do conjunto livro-filme. Disso não há dúvida, pois o filme vai realmente gerar um grande debate, não apenas na imprensa, mas nas universidades, nas favelas e até nas conversas de amigos e de ruas.

A população será despertada para o que são realmente as milícias. Muitos políticos, conforme as palavras de Pimentel em entrevista à revista "Época", "estão ligados a milicianos ou são apadrinhados por esses grupos. A população pode parar para refletir com o livro. Sem contar que esse não é um fenômeno só do Rio. Temos sinalizações de que milícias atuam em outros lugares do País".

Herói nacional
"Tropa de Elite 2" confirma Roberto Nascimento como o grande herói nacional. Sublinhado por uma narrativa em primeira pessoa, a cargo do próprio Nascimento (em mais uma atuação marcante de Wagner Moura), o filme expõe a suarevolta contra os homens que se elegem com o voto popular para roubar, manipular, matar, vilipendiar e esculhambar um sistema político.

Essa revolta do personagem vai tomando volume gradativamente, até chegar ao gogó e explodir quando seu filho é baleado num atentado que visa eliminar um jornalista. Ele resolve bater de frente com os policiais e políticos corruptos, a qual se expressa na incômoda cena em que ele esmurra violentamente um deles.

Em seu filme, Padilha não poupa nada: a polícia e seu sistema de segurança, as estratégias de combate ao crime organizado, os deputados, vereadores, governadores e até mesmo a imprensa. A polícia e os políticos, no entanto, são os alvos.

Com relação à imprensa, Padilha expõe as suas versões: asensacionalista, a amarrada ao sistema por questões de mídias e aquela corajosa, de homens e mulheres em cujas ações chegam até a arriscar suas vidas - e, vez por outra, são mortos no exercício da profissão. A jornalista assassinada pelas milícias é uma reconstituição próxima à do assassinato do repórter Tim Lopes, da Rede Globo.

Num dos momentos mais conscientes do filme, no entanto, Padilha reconhece, através do coronel Nascimento, que a imprensa é o único veículo ainda não totalmente contaminado pela corrupção e que por isso ela é tão combatida.

A afirmação leva ao espectador que a revelação dos recentes escândalos da Casa Civil da Presidência, expostas por jornais e revistas conceituados, expressa a execução de direitos e deveres de uma imprensa livre, a qual, perante tanta corrupção, acaba assumindo o posto de guardiã das instituições democráticas - tarefa que deveria ser exercida pelos políticos.

"Tropa de Elite 2" põe em dia a realidade vivida pelo País, não agora, mas resultado de sucessivos governos. Assim como o primeiro "Tropa de Elite" deixava claro que o morro está prestes a descer para a cidade - o que já está acontecendo com os bairros, ruas e avenidas do País transformados em cenários de violência cotidiana com seus assaltos, assassinos e tiroteios que ceifam vidas inocentes pelas "balas perdidas" -, "Tropa de Elite 2" indica que o crime, mais organizado do que se imagina, está vencendo a luta, tendo contaminado todas as instituições que formam um Estado. Ou seja, expõe a origem do crime, onde ele nasce, se desenvolve e atua.

Com isso, o filme faz um alerta: o Brasil, contaminado pela corrupção, está se tornando um País sem jeito. E isso não é apenas preocupante: sinaliza que as instituições democráticas estão fragilizadas e o povo, entregue à própria sorte.

"Tropa de Elite 2", superior ao antecessor em tudo por tudo, faz pensar sobre um Estado grande demais, com a obrigação de servir bem em áreas estratégicas - como os sistemas de educação, transporte, saúde e saneamento. O restante fornece os instrumentos para essa vergonha na qual o País se transformou. Por fim, encerrada a sessão, o filme promove uma pergunta inquietante: e a nação tem jeito? Basta pensar.

O coronel Nascimento é um personagem da ficção em um Estado de realidade. E esse Estado já fez de tudo para silenciar a imprensa. Não se enganem: com o voto manipulado, a corrupção controlada pelo poder e o País sem um coronel Nascimento de verdade, a situação é cruel e preocupante. Sobreviver à violência do dia a dia é a grande vitória do brasileiro - sem direito ao jeitinho, mas à sorte.

Na verdade, por mais que "Tropa de Elite 2" incomode, promova discussões e faça pensar, a realidade em nada mudará. As páginas policiais continuarão apenas a trocar os nomes dos personagens atacados pela violência. Quem irá mudá-la?

Resta ao brasileiro ficar atento e perceber que ele tem como seu aliado apenas uma imprensa livre. O seu último reduto de informação e de expressão da verdade. A questão que o filme deixa se apresentando agora é: conseguirá essa imprensa livre suportar a pressão exercida pelos poderosos políticos e pelo alto poder do País?

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